Iana Martins e Henrique Perrupato
Iana trouxe o sal, que tem para ela significado simbólico e noções espirituais com as quais ela se identifica. Em seu aspecto objetivo, a dupla encara o papel do sal como indispensável para a humanidade, presente de maneira dispersa ou concentrada em tantas esferas de nossas vidas que se tornou naturalmente parte delas, e impensável de se viver sem. Ele regula o equilíbrio dos alimentos – muito ou pouco sal tornam a comida ruim – e também age em sua preservação - salgar carnes para conservá-las é uma prática existente há séculos. Além disso, o sal dissolvido em água pode conduzir corrente elétrica, e quando misturado ao gelo, água e álcool, pode resfriar substâncias rapidamente – dois entre os diversos usos que o condimento tem na área da química. Eu trouxe o fone de ouvido, que em seu aspecto objetivo pode funcionar para reproduzir músicas, podcasts, audiobooks, entre outros. Ele também concede uma noção de individualidade - já que seu usuário escuta sozinho aquilo que é de seu interesse – privacidade, isolamento e de um momento particular, mesmo em um ambiente cheio e com muitos ruídos. Ademais, o uso do fone de ouvido também influencia na aproximação de pessoas, visto que quem os utiliza parece menos disponível. A partir dessa conversa, é possível perceber a influência dos objetos sobre nossa vida, ponto abordado no texto de Flusser. Para a Iana, o sal atravessa sua função primária e mais conhecida de regular o tempero da comida e assume uma importância pessoal muito maior. Para mim, o fone se torna não só um meio de escutar minhas músicas, mas também um limite entre um mundo pessoal e o mundo externo. Os objetos passam a não só representarem laços afetivos com seus possuidores, mas também a regrar alguns aspectos de suas vidas e exercer certo poder sobre eles. No meu caso, por exemplo, posso alterar meu percurso e voltar para casa se esqueci meu fone, ou até desconsiderar certos acontecimentos à minha volta pela falta de atenção gerada pela atmosfera privada do aparelho. Essa dependência e intrínseca presença dos objetos na vida dos seres humanos, ainda que nem sempre negativa, pode ser motivo de preocupação se combinada com as avançadas tecnologias de informação e algoritmos da internet. No documentário “O dilema das redes”, por exemplo, os espectadores são alertados para os perigos que o celular e as redes sociais – relativamente recentes na história - pouco a pouco foram ultrapassando a conveniência para se tornarem absolutas necessidades para as pessoas, causando graves casos de vício e tendo um controle sobre seus usuários muito maior do que o imaginado. Ao decidir o que capta de maneira mais eficaz a atenção do dono do smartphone, por exemplo, serviços de anúncios podem induzir destinos de viagens, programas a serem assistidos, comidas e escolhas de restaurantes e compras, necessárias ou não.
Comentários
Postar um comentário